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domingo, 10 de junho de 2007

Telejornal


Telejornal


Informam-me, neste momento: os corcéis cor de laranja

Romperam os cercados e cavalgam os horizontes.

Atenção, estúdio! A locutora desvia a franja,

E sorri: – Também foram avistados alguns bisontes.


Prossegue: – Arco-íris cinzentos – diz, enquanto esbanja

Simpatia – protestam calados, dizem várias fontes.

(Pausa). Prevê-se que esta manifestação abranja

Estepes, serras, selvas, vales, tundras, savanas e montes.


­– Economia: as taxas de juro foram detidas

Por atentado à Esperança que, abalada, se tornou vã.

– E agora o desporto: foram há pouco batidas


As marcas que tinham dado o recorde à campeã

Do desespero, da penúria e das causas perdidas.

Assim vai o nosso mundo! Boa noite! Até amanhã!


sexta-feira, 8 de junho de 2007

Inanição

O vento suprime os insterstícios dos nadas deste mundo. Solidário, submeto-me às sevícias de todos os paraísos e haréns e, sem resistir, deixo-me tomar por volutas prenhes de hedonismo e por sendas intransponíveis.


Guio meus passos por expectativas inesperadas. Sigo. Alguns escolhos. Insisto. Tombo. Ergo-me. Continuo. Difícil, o caminho. Não desisto. Prossigo. Tropegamente, porém. E avanço. E avanço.


Para onde? Porquê? Com que fim?


E se o fim não é o que almejo? E se a recompensa não merece o esforço? E se o desfecho se transforma em desilusão?


Placidamente, sento-me naquela pedra a que chamo irmã, e choro os meus medos.


domingo, 3 de junho de 2007

Reflexo


Reflexo

Veredas intermitentes de maus sonhos e ocasos
Desembocam em marés de suor e olheiras fundas.
No espelho risca-se o desalento! Negações rotundas,
As que gravo em ónix e outras pedras raras, de olhos rasos.

Índole perversa, maus fígados, tumores, acasos,
Despeito, as glórias, podres credos, intenções segundas,
Íntegros senãos, roucas evasivas, carnes imundas
Infestam-me! Em tempo algum correu sangue nos meus vasos!

E a indolência é tal, tanta a estupefacção, a algidez tamanha
Que retorno ao enxergão. Placentas, colibris e dores
Assaltam-me. É o outro eu, o outro ninguém que ganha.

Reagir? Nunca! O universo e eu somos bons actores
E se, visceralmente, a sofreguidão me acompanha,
Recuso o Caos e a Ordem e procuro os meus arredores.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Depois do caos, o princípio


Depois do caos, o princípio

Erram agoiros e bezerros nos ciprestes!

Atónito, forjo borboletas e urdo
Tules! Delirantemente, em estupor absurdo!

Crepitam bucéfalos, pêssegos e pestes!


Gorgolejam sílfides e gáveas! Agrestes,

Dançam bússolas e horizontes, em tom surdo!

Envoltas em desassossego e linho burdo,

Virgens e penúrias inventam suas vestes!


Ainda estou! Ardem fonemas e oceanos

Em lume brando! Profetas e outros enganos

Esvaem-se em plasmas e doutas incongruências!

O que é o Céu? O que é o Longe? E o Destino?
A Luz, por fim! De rastos, quase clandestino,

Invoco o adeus e lembro perdas e ausências!

domingo, 27 de maio de 2007

Carpe Noctem


Carpe Noctem

Implodem camiões e estrelas... É o deserto!

Nas cavernas límpidas esbracejam aranhas

Que querem escapulir-se pelo céu entreaberto,

Envoltas em soluços e penas tamanhas


Que a terra treme! Descrente, sinto um aperto!

Sorvo miragens. Escuto luzes. Cavo entranhas!

Sublimo zénites. Aguardo. E, então, converto

As histórias de embalar em mélicas sanhas.


Vêm fadas! Salta a carniça e, a poente,

Estanca o vinho e soçobram harpas e flautas.

Resguarda-se a noite, delicada, fremente.


Cai, por fim. Jasão convoca os Argonautas.

Anúbis recolhe-se em Néftis, indolente.

Aos braços de Nix tornam almas incautas.


terça-feira, 22 de maio de 2007

Sem valor, sem juízo, sem perdão!

Sem valor, sem juízo, sem perdão!


Alvarás decrépitos e juras de amor ditam mortes.

Suprimem-se dores e escoiceiam avencas pudibundas.

Infernizam-se em doces de mel e ovos os mais fortes.

Recolhem-se em seus eus as mariposas, meditabundas.


Castas cortesãs, abadessas vis, príncipes consortes,

Infames nobres, outros honestos, rainhas corcundas

Têm assento em miríades de funestas cortes,

Girândolas de gentes gelatinosas e imundas.


Escolhos persigo, e desnorteio ante o mar seráfico,

Supremo ser, sério e senil, de carácter biográfico,

Em que submerjo, enrolado em alísios e cetim.


Longe, em tropel, rinocerontes embalam suas crias

Enquanto marialvas e mafiosos contam os dias

De glória. Não obstante, são dilacerados. Enfim...


segunda-feira, 21 de maio de 2007

Em mim estou, de mim parto


Em mim estou, de mim parto


Blastócitos inermes e canoros

À deriva em úteros poluentes

Afloram, indecisos, entre poros

De voláteis e informes mentes.


Irrompem, então, átomos sonoros

Exultando e corroendo gentes

Cobardemente destemido, ignoro-os

E preparo o refúgio, entrementes.


Zoando, insectos helicoidais

Impõem-se em togas e casulas.

Genuflicto, e vislumbro entre os varais


Quatro belicosas e doces mulas

Que em ademanes secos e brutais

Esfacelam alforrecas e medulas.


domingo, 20 de maio de 2007

Hossana!


Hossana

Gemebundos, os poentes agnósticos solidificam-se em entremeios de veias desossadas.

Hossana!

Arroios pérfidos de pérolas periclitantes jazem imersos em discussões ímpias sobre marés roxas de vinho inerte e mal pisado.


Hossana!


Rouxinóis cancerosos estupidificam recolhidos em mosteiros de rendas baratas e salvaguardam a sua herança desbragada e veementemente.


Hossana!


Deslumbram-se, breves, sóis dementes, acariciando epidermes talhadas em oiro desalentado e em groselhas fulgurantes.


Hossana!


Irrompes, Diva, de uma lura improvável, e o horizonte distorce-se em pedradas sãs e ignóbeis, como se assim pudesse ser, mesmo quando as buganvílias tecem loas e a maresia se desconcentra.


Hossana! Hossana! Hossana!


sábado, 19 de maio de 2007

Fragmentos para uma estética do desalento

Sublime e desesperançada, a iniquidade e a impotência do que sobreavisando a eternidade se deixa subjugar pela quântica misantrópica de um universo irreflectido em si mesmo e no nada que o evola e que, ainda assim, o integra e valquirianamente o cavalga. O anátema enervante e imenso não é impudico, antes submerso e inviamente deslumbrado. Desconhece-se o ser e liminarmente se aflora o ego monstruoso, em ensaios míticos de unicórnios e sílfides que, operática e hereticamente, se confundem em tempestades estivais de fogos-fátuos e de arrependimentos ténues e inverosímeis. Salvem-se almas pútridas e maçãs ardentes em querosene barato, destilado à custa de privações de putativos sentidos amparados em similares conceitos desbragados e rudes. Roçaguem bestas imundas em damascos puídos e tremeluzentes e em canções servo-croatas, sob incomensuráveis concretos de ternura e de torresmos e soarão, em silêncios imundos e inamovíveis, os olhares antitetânicos e perversos dos que se chicoteiam plácida e acusadoramente com borlas de sânscrito e de alfazema pueril.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

De mim no mundo

Calvo turpius est nuhil comto
(Marcial)

Revolvo-me das e nas entranhas de Gaia, telúrica deusa, que venero por mãe – e por isso lhe obedeço – mas é-me impossível, por abjecta, a ideia de translucidar o que meus lúzios podem, em ínfimo nanossegundo, lobrigar.

Infâmia desmembrada e dissoluta, a daqueles que, Homens de pouca ou de ausente ou inanimada fé, vilipendiam a sua própria cognição e tumultuam, em desnorte plúmbeo, a indesejada inteligência, por esgotos de sabedoria avulsa, pretendendo exaurir-se em volutas de aquiescência servil para com os Deuses e para com os pares.

Esbarrondam-se as almas, prenhes de estultícia e de lucidez, em lagares de urze elevada e de espíritos azedos, esparrinham-se os colegiais humores (e amores) em dúbia nortada aceite perene e, rojando intenções benfazejas e insuportáveis, descontroem serenidades perplexas e ubiquidades diluvianas sempre-vivas.

Subjugando-se aos ignaros apelos da subtil e mourejante lascívia, num nepotismo indemne e estrito, embrutecem – condenados sejam, per omnia secula seculorum – e das entranhas permanentes nada ressuma, nada rescende, nem sequer atavios insones ou enxúndias glabras.

Sede malditos, ó ímpios!

Risu inepto res ineptior nulla est
(Catulo)