segunda-feira, 21 de maio de 2007

Em mim estou, de mim parto


Em mim estou, de mim parto


Blastócitos inermes e canoros

À deriva em úteros poluentes

Afloram, indecisos, entre poros

De voláteis e informes mentes.


Irrompem, então, átomos sonoros

Exultando e corroendo gentes

Cobardemente destemido, ignoro-os

E preparo o refúgio, entrementes.


Zoando, insectos helicoidais

Impõem-se em togas e casulas.

Genuflicto, e vislumbro entre os varais


Quatro belicosas e doces mulas

Que em ademanes secos e brutais

Esfacelam alforrecas e medulas.


domingo, 20 de maio de 2007

Hossana!


Hossana

Gemebundos, os poentes agnósticos solidificam-se em entremeios de veias desossadas.

Hossana!

Arroios pérfidos de pérolas periclitantes jazem imersos em discussões ímpias sobre marés roxas de vinho inerte e mal pisado.


Hossana!


Rouxinóis cancerosos estupidificam recolhidos em mosteiros de rendas baratas e salvaguardam a sua herança desbragada e veementemente.


Hossana!


Deslumbram-se, breves, sóis dementes, acariciando epidermes talhadas em oiro desalentado e em groselhas fulgurantes.


Hossana!


Irrompes, Diva, de uma lura improvável, e o horizonte distorce-se em pedradas sãs e ignóbeis, como se assim pudesse ser, mesmo quando as buganvílias tecem loas e a maresia se desconcentra.


Hossana! Hossana! Hossana!


sábado, 19 de maio de 2007

Ponte de Almas

Roberto Fabelo - Ninfa


Sofro, Lídia, do medo do destino.

A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.

Tudo quanto me ameace de mudar-me
Para melhor que seja, odeio e fujo.
Deixem-me os deuses minha vida sempre
Sem renovar

Meus dias, mas que um passe e outro passe
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo
Para a velhice como um dia entra
No anoitecer.

Ricardo Reis


Fragmentos para uma estética do desalento

Sublime e desesperançada, a iniquidade e a impotência do que sobreavisando a eternidade se deixa subjugar pela quântica misantrópica de um universo irreflectido em si mesmo e no nada que o evola e que, ainda assim, o integra e valquirianamente o cavalga. O anátema enervante e imenso não é impudico, antes submerso e inviamente deslumbrado. Desconhece-se o ser e liminarmente se aflora o ego monstruoso, em ensaios míticos de unicórnios e sílfides que, operática e hereticamente, se confundem em tempestades estivais de fogos-fátuos e de arrependimentos ténues e inverosímeis. Salvem-se almas pútridas e maçãs ardentes em querosene barato, destilado à custa de privações de putativos sentidos amparados em similares conceitos desbragados e rudes. Roçaguem bestas imundas em damascos puídos e tremeluzentes e em canções servo-croatas, sob incomensuráveis concretos de ternura e de torresmos e soarão, em silêncios imundos e inamovíveis, os olhares antitetânicos e perversos dos que se chicoteiam plácida e acusadoramente com borlas de sânscrito e de alfazema pueril.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

De mim no mundo

Calvo turpius est nuhil comto
(Marcial)

Revolvo-me das e nas entranhas de Gaia, telúrica deusa, que venero por mãe – e por isso lhe obedeço – mas é-me impossível, por abjecta, a ideia de translucidar o que meus lúzios podem, em ínfimo nanossegundo, lobrigar.

Infâmia desmembrada e dissoluta, a daqueles que, Homens de pouca ou de ausente ou inanimada fé, vilipendiam a sua própria cognição e tumultuam, em desnorte plúmbeo, a indesejada inteligência, por esgotos de sabedoria avulsa, pretendendo exaurir-se em volutas de aquiescência servil para com os Deuses e para com os pares.

Esbarrondam-se as almas, prenhes de estultícia e de lucidez, em lagares de urze elevada e de espíritos azedos, esparrinham-se os colegiais humores (e amores) em dúbia nortada aceite perene e, rojando intenções benfazejas e insuportáveis, descontroem serenidades perplexas e ubiquidades diluvianas sempre-vivas.

Subjugando-se aos ignaros apelos da subtil e mourejante lascívia, num nepotismo indemne e estrito, embrutecem – condenados sejam, per omnia secula seculorum – e das entranhas permanentes nada ressuma, nada rescende, nem sequer atavios insones ou enxúndias glabras.

Sede malditos, ó ímpios!

Risu inepto res ineptior nulla est
(Catulo)